O “hoje” da pergunta acima remete à última terça-feira, dia 9 de setembro de 2025. Dois dias após o acesso do Santa Cruz à Série C do Campeonato Brasileiro. “Acordaram” faz referência a Regiane Fernandes, Isabelly e Kauan Miguel. Esposa, filha e filho de Wagner Balotelli, volante do Santa Cruz, a quem foi dirigida a pergunta.
Há duas dimensões para caracterizar o que ele fez. A primeira é simples de deduzir. Domingo, dia 7, Wagner Balotelli fez um dos gols mais importantes da história recente do Santa Cruz. O gol que fez o time deixar a Série D, quatro anos após o último rebaixamento.
A outra dimensão envolve a história de Wagner Pereira Marques.
Wagner nasceu em Prevenido, distrito da cidade de América Dourada, no Sertão da Bahia – a aproximadamente 430 quilômetros de Salvador. Lugar onde viveu e abandonou, pela primeira vez, o sonho de ser jogador de futebol. Sonho que, ainda hoje, conjuga no passado.
O desejo era de Wagner. O maior incentivo vinha da mãe. “Ali é minha guerreira. Meu pai nunca foi muito de futebol. Então, quando ele ia pro trabalho, ela pegava o dinheiro escondido: ‘Vai lá, meu filho. Compra a tua chuteira.”
Prevenido foi o lugar de Wagner até o limite da adolescência. Quando, geralmente, a responsabilidade - que por vezes atende pelo nome de necessidade - costuma colocar limites no sonho.
O destino foi pegar uma carona com um dos sete irmãos, que morava em Brasília. “Cheguei lá e arrumei serviço. Trabalho de ajudante de pedreiro. Trabalhei ainda uns quatro anos.”
“Tem uma história até engraçada. Eu passava de frente do CT do Brasiliense (quando ia para o trabalho), e um rapaz que me levava falava: ‘Poxa, Negão! Tu joga muita bola e tá trabalhando de obra, pô. Era pra tu estar aí!’ Eu falava: ‘Ah, pô. É Deus. Eu tive um sonho, mas acho que esse sonho não vai ser realizado, não.”
Nessa época, o único - e, talvez, último - refúgio do sonho eram os jogos amadores no fim de semana, nos arredores de Brasília.
Wagner começou a repetir a frase acima como um mantra durante uma partida. Não um dos jogos disputados nos campos de várzea de Brasília, nas peladas do fim de semana.
Aconteceu na noite do domingo, 7 de setembro de 2025, na Arena das Dunas, em Natal, Rio Grande do Norte. No estádio, América-RN e Santa Cruz decidiram o acesso para a Série C. O Santa, equipe de Wagner, tinha a vantagem do empate. Até os dois minutos do segundo tempo.
Com o pé direito, Wagner cortou um passe adversário. De imediato, com o outro pé, esticou um passe na direção de Willian Júnior, o camisa 10 do seu time. Willian não dominou, e o América recomeçou o ataque. No complemento da jogada, saiu o gol. Um a zero para a equipe de Natal. Placar que levava o jogo - e a decisão do acesso - para os pênaltis.
Na cabeça dele, era a oportunidade de uma redenção.
Quase uma década antes do jogo América-RN x Santa Cruz, Wagner ganhou a oportunidade de virar um jogador de futebol profissional. Aos 23 anos, naquela época em que disputava jogos amadores nos arredores da capital federal.
“Eu não fui porque eu trabalhava. A minha mulher estava grávida e eles (time) não queriam pagar, né? A oportunidade Deus me deu, só que… Teve a questão financeira. Eu tinha que pagar aluguel, a minha esposa estava grávida. Eu cheguei em casa, conversei com ela. Aí, eu falei: ‘Não vou, não vou.’ Aí, não fui.”
Wagner é feito de fé. Não só na sua dimensão religiosa. Mesmo quando deixou para trás o sonho de ser jogador de futebol - mais de uma vez -, ele não deixou de acreditar.
Tanto que, um ano após dizer ‘não’, recebeu, dos mesmos “dirigentes”, a mesma proposta para iniciar uma carreira profissional. Nas mesmas condições, sem receber nada - ou quase nada. Ele não recusou de imediato.
Como foi para a área aos 36 minutos do segundo tempo do jogo América-RN x Santa Cruz, encorajado pelos companheiros de time. “Eu não ia pra área, aí o Galhardo (Gabriel) falou: 'Vai pra área, vai pra área! Deixa que eu fico aqui atrás.' Aí, o Toty disse: 'Vai, vai!'. Se você pegar o lance eu fui no trote, devagarzinho. Pra tudo, tem o momento certo. De encaixe, né?”
Enquanto se dirigia para a área, Willian Júnior, o camisa 10, ajeitava a bola para cobrar uma falta na intermediária. Autorizado pelo árbitro, cruzou a bola na área.
Aos 24 anos, Wagner deu mais uma chance ao sonho abandonado. Apoiado pelo amigo João dos Passos e pela esposa, começou a carreira profissional no Taguatinga.
Além do Gama, a história de Wagner passou pelo Anápolis, Brasiliense, Camboriú, Brusque, São José e Tombense. Em outubro de 2024, foi anunciado como reforço pelo Santa Cruz Futebol Clube.
“Já passei em muitos clubes e eu não tive a felicidade que eu tenho aqui agora, que eu tô passando. Eu já estava feliz aqui, é o que eu sonhava. Jogar num time imenso, que tem torcida, um time grande. Então, é um sonho realizado. E com o acesso, aí é que melhorou mesmo.”
Pouco antes de conquistar o acesso, o Santa Cruz anunciou a renovação do contrato com Wagner. O vínculo atual é até dezembro de 2026.
Terça-feira, dia 9 de setembro de 2025. Nesse dia, Wagner Balotelli concedeu uma das raras entrevistas desde que chegou ao Santa Cruz.
Foram aproximadamente 20 minutos de conversa. As duas últimas perguntas, envolviam a família. A primeira, feita pela repórter, sobre a reação da esposa, da filha e do filho quando ele chegou em casa após a partida contra o América.
Pergunta que teve uma resposta que responde às duas dimensões do feito de Wagner. Talvez por isso, ele tenha repetido após uma pausa, ainda incrédulo diante do que ele fez. No jogo, na vida.
“Tá caindo a ficha agora… Tá caindo a ficha agora.”