Poucas vezes na história uma classe de medicamentos provocou tamanha comoção e tantos efeitos (positivos, em sua maioria) na sociedade. As canetas para perda de peso de aplicação semanal foram lançadas em 2018 para atender a uma demanda de saúde pública — controlar a obesidade, que já afeta mais de 1 bilhão de pessoas pelo mundo —, ao mesmo tempo que tornaram realidade para homens e mulheres um antigo e redivivo anseio diante do espelho. Ao conquistarem reduções de massa corporal antes inimagináveis com um fármaco (de 15% a 20% do peso, em média), mudaram condutas em consultório, catapultaram ações de laboratórios nas bolsas e repercutiram em outras indústrias,... [Leia mais]
Poucas vezes na história uma classe de medicamentos provocou tamanha comoção e tantos efeitos (positivos, em sua maioria) na sociedade. As canetas para perda de peso de aplicação semanal foram lançadas em 2018 para atender a uma demanda de saúde pública — controlar a obesidade, que já afeta mais de 1 bilhão de pessoas pelo mundo —, ao mesmo tempo que tornaram realidade para homens e mulheres um antigo e redivivo anseio diante do espelho. Ao conquistarem reduções de massa corporal antes inimagináveis com um fármaco (de 15% a 20% do peso, em média), mudaram condutas em consultório, catapultaram ações de laboratórios nas bolsas e repercutiram em outras indústrias, como a do vestuário e a de alimentos, que se viram obrigadas a ajustar tamanhos e porções. Hoje essas drogas movimentam mais de 70 bilhões de dólares globalmente, com perspectivas de a cifra triplicar em menos de uma década. Trata-se de uma revolução que ajudou a instalar a farmacêutica americana Eli Lilly, dona do Mounjaro, no caminho de bater o recorde de 1 trilhão de dólares em valor de mercado. E, como tudo que envolve remédio, reações adversas também surgiram: no caso, com as versões irregulares e contrabandeadas.
A questão é que a marcha das canetas não parou. Pelo contrário, segue em ritmo galopante. Tudo leva a crer que Wegovy e Mounjaro, que lideram o segmento, não estarão mais sozinhos na corrida pelo emagrecimento e no tratamento dos males associados ao acúmulo de gordura. Comprimidos e outras moléculas ainda mais potentes despontam no horizonte. E, com a quebra das patentes, os genéricos e similares também entrarão em cena, expandindo o acesso aos brasileiros.
O novo capítulo começa com a chegada das pílulas. Nos Estados Unidos, acaba de ser lançado o Wegovy pill, um tablete de uso diário à base da mesma semaglutida das canetas de Ozempic e Wegovy. “Os estudos mostram que a versão em comprimido pode ter eficácia semelhante à da forma injetável”, diz o endocrinologista Fabio Trujilho, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso). O fármaco, fruto de uma tecnologia sofisticada que conseguiu colocar o princípio ativo em um revestimento capaz de superar o ambiente ácido do estômago, já foi submetido à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), podendo ser aprovado ainda em 2026. “Ao disponibilizar tanto a apresentação injetável quanto a oral, ampliamos a possibilidade de personalizar o tratamento, favorecemos a adesão no longo prazo e aumentamos o acesso”, afirma Priscilla Mattar, vice-presidente médica da base nacional da Novo Nordisk, o laboratório por trás do produto.
A ideia dessa nova safra não é aposentar as canetas. Espera-se um convívio entre as formulações. “Não é substituição, pois os injetáveis continuarão sendo essenciais a muitos pacientes, enquanto os orais podem ampliar a conveniência e a flexibilidade do tratamento”, avalia Luiz André Magno, diretor médico da Lilly no país. A companhia americana também tem sua pílula na manga, a orforgliprona. A exemplo da semaglutida, ela é um análogo de GLP-1, isto é, imita um hormônio que, por meio de uma ação no cérebro e em outras áreas do corpo, induz a sensação de saciedade e doma o apetite. O comprimido, que vai dividir as atenções do laboratório com o Mounjaro, já passou por ensaios clínicos e está aguardando o aval dos órgãos regulatórios. Provendo perdas de peso na ordem de 12%, em média, espera-se que possa ser produzido e disponibilizado em larga escala, pois não depende da cadeia logística mais complexa das canetas. Ainda assim, não se deve esperar preços muito mais baixos em um primeiro momento. Nos EUA, o Wegovy pill, que chega a eliminar mais de 20% da massa corporal em um a cada três usuários, está custando 150 dólares o tratamento mensal. A caneta sai a partir de 200 dólares. É o preço da tecnologia e das pesquisas embutido.
A aposta nos comprimidos também tem a ver com uma questão estratégica para as grandes farmacêuticas: a queda das patentes. A previsão é que a da semaglutida injetável caia em março, no Brasil, mobilizando a força de trabalho e desenvolvimento da Novo Nordisk. E, no Congresso Nacional, está em discussão uma controversa proposta de acelerar o fim da patente do Mounjaro. De olho nessas movimentações, laboratórios nacionais como a EMS entraram em campo criando canetas de uso diário e testando suas versões de ação semanal. Em um acordo com a Novo Nordisk, a Eurofarma lançou um similar do Wegovy, utilizando a mesma substância fabricada pela companhia dinamarquesa. A diferença no preço, porém, por ora não é tão expressiva. Na dose máxima de 2,4 mg, a caneta de Wegovy está à venda nas farmácias a partir de 1 699 reais, enquanto o Poviztra, distribuído pela Eurofarma, custa 1 619 reais. Com novas ofertas e a maior concorrência dos “genéricos”, no entanto, presume-se que os preços baixem em maior magnitude.
As farmacêuticas multinacionais, destaque-se, enxergam longe. Investem pesado na busca de drogas mais poderosas e moléculas ainda mais requintadas. Na Europa, a Novo Nordisk recebeu sinal verde para comercializar uma versão do Wegovy com dosagem três vezes maior que a disponível — nos estudos, ela bateu os 20% de perda de peso, ficando em um patamar semelhante ao do Mounjaro. E outros nomes aparecerão no percurso. Se tudo começou com os análogos de GLP-1, a tendência científica parece se firmar sobre a combinação de princípios ativos que emulem outros hormônios. Um dos que mais chamam a atenção é a retatrutida, da Lilly, que demonstrou nas pesquisas chegar a 30% de redução da massa corporal, valor próximo ao da cirurgia bariátrica. Trata-se de uma caneta que simula três hormônios que regem a saciedade e o equilíbrio energético. Na pista dos produtos em fase de testes, a empresa sediada nos Estados Unidos e a Novo Nordisk não estão mais sozinhas. Outros concorrentes dispararam, inclusive da China. “Já temos em estudo uma injeção subcutânea aplicada uma única vez por mês, que ultrapassou perdas de 20% do peso”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto. “São novas frentes que, em comum, poderão aumentar o leque terapêutico e melhorar a adesão dos pacientes ao tratamento.”
Enquanto esse futuro auspicioso não chega, o presente entrega desafios e preocupações. Um deles é o uso indiscriminado das canetas sem orientação médica adequada. Um alerta sobre o risco de pancreatite foi emitido pela Anvisa, que também investiga 65 mortes e mais de 2 400 eventos adversos associados a esse grupo de medicamentos desde 2018. O problema é que, inúmeras vezes, os prejuízos são fruto de uma utilização que dispensa a avaliação e o acompanhamento de especialistas. Carentes dessa bússola e iludidos pelos contos e postagens das redes sociais, pacientes podem cair em armadilhas, como a que os médicos batizaram de “agonorexia”. “É um termo que define a supressão excessiva e disfuncional do apetite induzida por esses medicamentos. Não é apenas comer menos. É não sentir fome, não lembrar de comer ou ter até aversão à comida”, afirma o endocrinologista Clayton Macedo, da Universidade Federal de São Paulo. Nessa situação, o indivíduo não raro entra em um desequilíbrio fisiológico capaz de deixá-lo doente. O pior é que, inadvertidamente, situações como essa se tornam mais frequentes com a volta da ditadura da magreza inspirada pelo universo da moda e por perfis em Instagram, TikTok e cia. — um levantamento revela que, entre desfiles internacionais recentes, somente 2% das roupas tinham tamanho médio e escasso 0,3% era plus size.
O fato é que, no vaivém de boas e más notícias, o avanço das canetas cristaliza uma onda de comportamento que vai além da medicina, com profundos reflexos no cotidiano e, claro, na economia. É fascinante, e convém um passeio histórico para ter dimensão do fenômeno. Nos anos 1980, entramos na era do Prozac, antidepressivo vendido como “pílula da felicidade” que deu início a uma longa discussão sobre saúde mental, que só amadureceu após a pandemia de covid-19. Em 1998, por sua vez, o lançamento do Viagra contra a impotência sexual mudou a vida de homens e casais muito além das quatro paredes — um ganho que converge para a busca de uma longevidade ativa, produtiva e feliz. Nada vem sem marés adversas, claro: no caso do Viagra, pesquisas mostraram aumento das infecções sexualmente transmissíveis no público com mais de 60 anos pela falta do hábito de usar o preservativo assim que se livravam da “aposentadoria” sexual. Com o elenco de Ozempic, Wegovy e Mounjaro, as repercussões atingiram o mercado do vestuário, as porções dos alimentos nos restaurantes e no supermercado e até a prescrição de dietas para lidar com a perda de massa muscular, que também ocorre junto à eliminação da gordura. Ações e reações em cadeia.
E, numa nova volta em que a ciência ataca os problemas e dilemas da saúde pública, podemos esperar que as canetas para o tratamento da obesidade, que estrearam na verdade para conter o diabetes, nos brindem com outras aplicações, algumas delas inclusive distantes da missão de enxugar os quilos a mais. Os órgãos regulatórios endossaram recentemente a indicação da semaglutida como uma estratégia de prevenção das doenças cardiovasculares — a causa número 1 de mortes no mundo hoje. O Wegovy foi aprovado pela Anvisa como uma das únicas terapias contra a gordura no fígado, uma condição silenciosa que pode arruinar o órgão e a saúde com os anos. E o Mounjaro hoje pode ser prescrito para um distúrbio ruidoso que derruba a qualidade das noites de descanso e amplia o risco de piripaques cardíacos e cerebrais, a apneia do sono. Em estudos em andamento, a classe inaugurada com os análogos de GLP-1 está sendo avaliada diante de enfermidades tão diversas como a psoríase, por trás de lesões na pele, e a osteoartrite, que impõe dores e limita os movimentos dos joelhos. Especula-se que sua ação anti-inflamatória responda pelos benefícios cutâneos e articulares, assim como evite dissabores pelos vasos sanguíneos. Fora isso, há cientistas apostando as fichas nas medicações como uma forma de tratar a dependência alcoólica e outros transtornos psíquicos. Sim, a revolução vai muito além do peso. “Na verdade, esses medicamentos mudaram o tratamento da obesidade não apenas pela perda de peso em si, mas pela redução do risco cardiovascular e de outras doenças”, afirma Gomes, da Sbem.
Apesar das altas expectativas em jogo, o debate sobre as canetas e as recentes pílulas para emagrecer desperta pontos de controvérsia e reflexão. Um deles tem a ver com o próprio entendimento atual dos médicos sobre a obesidade. Por ora, questiona-se, por exemplo, se as pessoas acima do peso só conseguirão enxugar as medidas com um “atalho químico”. E se vão depender para sempre das picadas semanais ou de comprimidos diários de análogos de GLP-1 para se conservarem magras. “A obesidade deve ser encarada como uma doença crônica e, para a manutenção dos benefícios, o tratamento normalmente deve ser continuado, da mesma forma que ocorre com outros problemas de saúde crônicos, como hipertensão e diabetes”, diz Trujilho, da Abeso. Aliás, os estudos atuais revelam que, quando se abandona a caneta, o reganho de peso ocorre e é até esperado. Isso significa que, diante de uma condição que pode retornar por razões genéticas, metabólicas e comportamentais — vivemos, como dizem os experts, em um mundo obesogênico —, o tratamento médico precisa ser constante, com ajuste de doses e outras estratégias no meio do caminho. E nenhuma nova tecnologia nos eximirá de prescrever mudanças na alimentação, prática de exercícios físicos e outros cuidados indispensáveis a um peso adequado e a uma boa saúde. É assim, entre progressos, sustos, placas de atenção, sonhos e realizações, que a marcha das canetas segue em frente. Uma história de evolução que transborda os muros dos laboratórios e consultórios e não parece ter um ponto-final no horizonte.
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