O diagnóstico mudou completamente nossas rotinas. O dia a dia passou a ser tomado por consultas, exames, ajustes práticos e gente entrando e saindo da casa dele para ajudar. Minha mãe, Bety, foi presença permanente, dando o suporte emocional que nos sustentava. Ele era uma pessoa que cultivava hábitos, e procuramos manter os que tanto valorizava: a ida à piscina, que passou a ser acompanhada de um fisioterapeuta, e também os prazeres simples, como o picolé de coco, a cerveja gelada aos domingos, a água mineral que só gostava em garrafa de vidro. Também lhe dávamos o jornal, que ele lia diariamente. O vinho que tanto adorava teve que ser abandonado. Fiz uma profunda reflexão... [Leia mais]
O diagnóstico mudou completamente nossas rotinas. O dia a dia passou a ser tomado por consultas, exames, ajustes práticos e gente entrando e saindo da casa dele para ajudar. Minha mãe, Bety, foi presença permanente, dando o suporte emocional que nos sustentava. Ele era uma pessoa que cultivava hábitos, e procuramos manter os que tanto valorizava: a ida à piscina, que passou a ser acompanhada de um fisioterapeuta, e também os prazeres simples, como o picolé de coco, a cerveja gelada aos domingos, a água mineral que só gostava em garrafa de vidro. Também lhe dávamos o jornal, que ele lia diariamente. O vinho que tanto adorava teve que ser abandonado. Fiz uma profunda reflexão sobre quão essencial era deixá-lo longe dos holofotes. Embora fosse figura pública, meu pai tinha direito à privacidade. Muita gente questionou seu recolhimento, mas fui firme: ter escrito tantas novelas ao longo de mais de cinco décadas não autorizava ninguém a participar daquele momento ou convertê-lo em espetáculo. Respeitar seu espaço foi uma forma de amor.
Quando as complicações se agravaram e as internações se tornaram frequentes, no início de 2024, mantivemos uma conexão ainda mais próxima. Às vezes, alguém ligava do hospital dizendo: “Júlia, seu pai sonhou com você, fala um oi” — e fazíamos uma videochamada. Pequenos gestos nos aproximavam nos dias mais difíceis. No último Natal, organizei uma celebração em família. Conversei com ele, beijei sua testa e falei: “Pode descansar”. Não era um gesto de resignação, mas o reconhecimento de um desfecho que eu já vinha aceitando. Nosso último diálogo foi uma troca de olhares. Ele partiu aos 92 anos, em 10 de janeiro, segurando minha mão no hospital. Foi em paz, sereno, ainda que tudo tenha sido doído.