Viver é saber que o tempo corre. Por isso, desde que o mundo é mundo, negociamos com o relógio. Alquimistas procuraram o elixir da longa vida, imperadores enviaram expedições em busca de ervas milagrosas, navegadores atravessaram mares atrás da fonte da juventude. E só mesmo um anseio assim, tão presente na história da humanidade, explica o tamanho da indústria da longevidade. Multiplicam-se suplementos e exames genéticos; relógios e anéis medem nossos passos e transformam o sono em planilha. É um dos mercados que mais crescem, depois do de inteligência artificial — aliás, uma arma poderosa nessa corrida.
Mas, fora da ficção, estudos mostram que o DNA... [Leia mais]
Viver é saber que o tempo corre. Por isso, desde que o mundo é mundo, negociamos com o relógio. Alquimistas procuraram o elixir da longa vida, imperadores enviaram expedições em busca de ervas milagrosas, navegadores atravessaram mares atrás da fonte da juventude. E só mesmo um anseio assim, tão presente na história da humanidade, explica o tamanho da indústria da longevidade. Multiplicam-se suplementos e exames genéticos; relógios e anéis medem nossos passos e transformam o sono em planilha. É um dos mercados que mais crescem, depois do de inteligência artificial — aliás, uma arma poderosa nessa corrida.
Mas, fora da ficção, estudos mostram que o DNA explica apenas uma fração da longevidade. Alimentação equilibrada, sono regular, atividade física, vínculos sociais e propósito pessoal continuam sendo as variáveis mais poderosas. No entanto, aderir aos melhores protocolos não garante vida longa. Podemos e devemos manter um cotidiano equilibrado para ter saúde ao longo do tempo. Porém transformar cada detalhe do corpo em meta pode nos afastar do que mais importa. Compramos a ideia de que, se mapearmos todos os riscos, vamos viver mais. Mas vamos mesmo viver melhor?
Entre super-ricos americanos, já se fala na “síndrome da fixação por longevidade”. Pessoas que podem empregar até 120 000 dólares por semana em protocolos que controlam o corpo estão adoecendo a mente com essa obsessão. Curiosamente, se analisarmos as estatísticas, os países com mais bilionários não são necessariamente os mais longevos. Desigualdade no acesso à saúde, alimentação baseada em ultraprocessados e alta incidência de doenças crônicas mostram que a questão não é apenas de renda individual: é sobretudo fruto de contexto social. Assim, nossa antiga ambição de viver mais pode até alimentar uma indústria bilionária; mas a base para alcançá-la está em escolhas simples, repetidas todos os dias. Viver bem, sem que isso se torne mais um excesso contemporâneo, talvez seja a verdadeira inovação do nosso tempo.