Pode parecer exagero, mas escovar mal os dentes pode acabar cobrando um preço mais alto do que se imagina. Cada vez mais estudos mostram que inflamações nas gengivas, especialmente a periodontite, não ficam restritas à cavidade oral. Elas podem atravessar a corrente sanguínea e atingir órgãos vitais. Entre eles, o coração.
A ideia pode parecer improvável à primeira vista, mas vem ganhando força na literatura científica. Cada vez mais pesquisas apontam que infecções e inflamações na boca, especialmente gengivite e periodontite, podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares. O motivo... [Leia mais]
Pode parecer exagero, mas escovar mal os dentes pode acabar cobrando um preço mais alto do que se imagina. Cada vez mais estudos mostram que inflamações nas gengivas, especialmente a periodontite, não ficam restritas à cavidade oral. Elas podem atravessar a corrente sanguínea e atingir órgãos vitais. Entre eles, o coração.
A ideia pode parecer improvável à primeira vista, mas vem ganhando força na literatura científica. Cada vez mais pesquisas apontam que infecções e inflamações na boca, especialmente gengivite e periodontite, podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares. O motivo está no comportamento das bactérias que habitam naturalmente a cavidade oral.
Quando a gengiva está inflamada ou há uma infecção periodontal ativa, esses microrganismos conseguem atravessar os tecidos da boca e alcançar a corrente sanguínea. A partir daí, passam a zanzar pelo organismo e a interferir em diferentes processos biológicos. No caso do sistema cardiovascular, esse movimento pode desencadear uma série de reações inflamatórias que afetam diretamente os vasos sanguíneos.
Segundo a cardiologista Auristela Ramos
, assessora científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)
, o mecanismo mais aceito envolve a inflamação persistente provocada pelas infecções bucais. “Quando há inflamação nas gengivas ou uma infecção mal tratada, o organismo permanece em estado de alerta. Esse processo inflamatório contínuo pode prejudicar os vasos sanguíneos e favorecer o entupimento das artérias”, explica.
Esse cenário cria terreno fértil para a formação de placas de gordura nas paredes dos vasos — processo conhecido como aterosclerose, que está por trás de problemas como infarto e AVC. Em outras palavras: aquilo que começa como uma gengiva sangrando pode, em certos contextos, se transformar em mais um fator que pesa sobre o sistema cardiovascular.
Mas a história não termina aí. Existe também um caminho mais direto para o coração. Em situações de cáries profundas ou doença periodontal avançada, as bactérias podem entrar na corrente sanguínea e se instalar em estruturas cardíacas. “Uma vez no sangue, elas podem chegar ao coração e se alojar nas válvulas cardíacas, provocando uma infecção chamada endocardite“, afirma Ramos.
A ligação entre boca e coração, aliás, não é exatamente uma novidade. Um dos primeiros sinais de alerta apareceu ainda em 1989, quando pesquisadores compararam pacientes internados por infarto com outros cardiopatas da mesma idade e gênero. O grupo que havia sofrido infarto apresentava, em média, piores condições de saúde bucal.
Desde então, diferentes estudos reforçaram essa associação. Em um deles, a periodontite apareceu cerca de 2,5 vezes mais entre pessoas com doença arterial coronariana do que entre indivíduos com artérias saudáveis.
Para o dentista Frederico Buhatem Medeiros
, assessor científico do Departamento de Odontologia da Socesp, a discussão científica avançou. “Hoje o debate não é mais se existe associação entre doença periodontal e problemas cardiovasculares, isso já está bem documentado”, afirma. A questão, segundo ele, é entender se a doença gengival funciona como um fator de risco independente ou se costuma aparecer junto de outros vilões clássicos, como tabagismo, diabetes e obesidade.
Mesmo com perguntas ainda em aberto, especialistas concordam que a boca não pode mais ser vista como um território isolado do resto do corpo. A própria cardiologia começa a olhar para a saúde bucal como parte das estratégias de prevenção cardiovascular.
Isso porque tratar a periodontite, além de preservar os dentes, pode trazer efeitos sistêmicos. Estudos indicam que cuidar da saúde bucal reduz marcadores inflamatórios no sangue e melhora a função dos vasos sanguíneos, dois indicadores importantes para a saúde do coração.
Traduzindo para a vida real, o cuidado é menos sofisticado do que parece. Escovar os dentes pelo menos duas vezes por dia (e por pelo menos dois minutos!), usar fio dental e visitar regularmente o dentista continuam sendo medidas simples, mas que garantem benefícios que vai além de um sorriso bonito.