Buscar formas de combater o câncer é, sem dúvidas, um dos grandes desafios da medicina. Agora, um medicamento experimental que busca restaurar a função de um dos principais genes de defesa contra tumores parece ter apresentado resultados iniciais positivos.
A pesquisa incluiu 77 pacientes com câncer avançado ou metastático que já haviam passado por diversos tratamentos sem sucesso. Entre eles estavam tumores de ovário, pâncreas, mama e intestino.
O gene mais mutado do câncer
O alvo do medicamento é o gene
TP53
, o mais... [Leia mais]
Buscar formas de combater o câncer é, sem dúvidas, um dos grandes desafios da medicina. Agora, um medicamento experimental que busca restaurar a função de um dos principais genes de defesa contra tumores parece ter apresentado resultados iniciais positivos.
A pesquisa incluiu 77 pacientes com câncer avançado ou metastático que já haviam passado por diversos tratamentos sem sucesso. Entre eles estavam tumores de ovário, pâncreas, mama e intestino.
O gene mais mutado do câncer
O alvo do medicamento é o gene
TP53
, o mais frequentemente alterado quando o assunto é câncer. Estima-se que mutações nesse gene estejam presentes em
mais da metade dos cânceres sólidos
.
Esse gene produz a proteína p53, responsável por funções importantes dentro da célula, como interromper a divisão celular quando há danos no DNA ou induzir a morte de células defeituosas. Quando ele perde sua função, as células tumorais conseguem crescer e se multiplicar com mais facilidade.
“O P53 é um gene supressor tumoral. Em termos simples, ele funciona como um freio natural contra o crescimento desordenado das células. Quando essa via falha, algo comum em praticamente todos os tipos de tumor, o câncer consegue se desenvolver e se espalhar”, explica o oncologista Daniel Musse, membro das sociedades brasileira, americana e europeia de oncologia clínica.
O rezatapopt foi projetado para agir em uma mutação específica do gene, chamada
TP53 Y220C
.
Essa alteração provoca uma instabilidade estrutural na proteína p53, impedindo que ela desempenhe seu papel de supressora de tumores. O novo medicamento se encaixa em uma espécie de “bolso molecular” criado por essa mutação e ajuda a estabilizar novamente a proteína, restaurando sua função.
Em termos simples, a estratégia tenta
“ligar novamente”
um sistema natural de defesa contra o câncer que foi desativado pela mutação genética.
Resultados iniciais
No estudo, os pacientes receberam o medicamento por via oral em ciclos contínuos de 21 dias. A dose considerada mais adequada para as próximas fases da pesquisa foi
2000 mg por dia, administrada com alimentos
.
Os resultados mostraram:
De acordo com Musse, apesar de
ser estudada há décadas
, nenhuma medicação havia conseguido, até agora, restaurar a função da proteína de forma tão eficaz.
“A gente sempre soube que
o p53
era uma peça-chave na proteção contra o câncer. Mas nunca conseguimos atuar ali com sucesso. Essa droga parece mudar esse cenário”, explica o oncologista.
Segundo ele, o ponto mais marcante do estudo é o fato
de a estratégia principal não ser destruir diretamente a célula tumoral, mas reativar um mecanismo natural do próprio corpo.
” Nosso organismo tem mecanismos muito sofisticados de equilíbrio. O que essa droga faz é tentar restaurar uma função que já existe, que naturalmente protege contra o câncer. É como religar um sistema de defesa que estava desligado.”
Efeitos colaterais
Como esperado em terapias contra o câncer, efeitos adversos aconteceram. Os mais frequentes foram:
Na maioria dos casos, os sintomas foram leves ou moderados e puderam ser controlados com ajuste de dose ou tratamento de suporte.
Apenas
3% dos pacientes interromperam o medicamento devido a efeitos colaterais relacionados ao tratamento.
Próximos passos
Como se trata de um
estudo de fase 1
, o principal objetivo foi avaliar segurança e determinar a dose adequada para as próximas etapas. Ou seja, ainda é uma pesquisa inicial, embora os resultados tenham se mostrado promissores.
Agora, o medicamento deve avançar para
estudos de fase 2 e 3
, que avaliarão com mais precisão sua eficácia em grupos maiores de pacientes.
Se os resultados se confirmarem, a estratégia pode representar um novo tipo de tratamento personalizado para tumores que carregam essa mutação específica.
“É cedo para falar em mudança de prática, mas é um sinal muito forte. Mexeu com a classe médica porque mostra que o caminho pode estar justamente em recuperar mecanismos que o próprio corpo já tem”, opina Musse.