Lá se vão mais de cinco décadas desde que o movimento feminista, a invenção da pílula anticoncepcional, as leis do divórcio e a contracultura chacoalharam os alicerces das sociedades ocidentais, pondo em xeque a ideia há séculos cultivada de que homens e mulheres deveriam unir-se em apertados e indissolúveis laços. O amor livre, consensual e, por vezes, casual e temporário, trouxe liberdade de escolha em campo tão fundamental para a humanidade — e houve até quem o adotasse com alguma convicção. Mais recentemente, a inescapável revolução digital agitou ainda mais o caldeirão ao oferecer, antes de qualquer contato físico, informações sobre o par, em perfis de... [Leia mais]
Lá se vão mais de cinco décadas desde que o movimento feminista, a invenção da pílula anticoncepcional, as leis do divórcio e a contracultura chacoalharam os alicerces das sociedades ocidentais, pondo em xeque a ideia há séculos cultivada de que homens e mulheres deveriam unir-se em apertados e indissolúveis laços. O amor livre, consensual e, por vezes, casual e temporário, trouxe liberdade de escolha em campo tão fundamental para a humanidade — e houve até quem o adotasse com alguma convicção. Mais recentemente, a inescapável revolução digital agitou ainda mais o caldeirão ao oferecer, antes de qualquer contato físico, informações sobre o par, em perfis de aplicativos especializados. A possibilidade de conhecer pessoas deslizando o dedo pela tela do celular inaugurou uma dinâmica veloz e abundante de interações.
Mesmo sem criar vínculos, não são poucos os que se sentem realizados com uma ampla miríade de casos amorosos. Pesquisa realizada pela empresa de consultoria de mercado MindMiners, com exclusividade para VEJA, com 1 000 indivíduos da geração Z, de até 29 anos, revelou que aproximadamente 40% aspiram relações com algum grau de liberdade, que vai desde estar solteiro até o relacionamento aberto, passando pelos parceiros casuais. Daniele Ventura, 30 anos, reconhece predileção por fazer a fila andar. “Costumo engatar uma relação depois da outra”, diz a esteticista. “Prefiro manter minhas opções abertas enquanto descubro o que realmente faz sentido para mim.”
Não é o caso de fazer um julgamento ético. O uso intensivo da tecnologia para conhecer parceiros a rodo pode revelar-se excitante, sim. Com o tempo, contudo, costuma dar lugar a angústias, falta de vínculo afetivo e até uma sensação de vazio frequentemente descrita por usuários contumazes, que colecionam romances a jato. “Muitas vezes me vi mais encantado pela possibilidade de conhecer uma pessoa nova do que pela construção da relação”, admite o assessor de comunicação Wellington Melo, 30 anos, que perdeu a conta do número de mulheres com quem se relacionou desde que ficou solteiro, depois de passar três meses dividindo o teto com uma ex-companheira. Ainda assim, ele evita depositar expectativas no outro para não se decepcionar. “Hoje prefiro ter várias parceiras legais do que uma ruim”, diz. É uma opção válida, contanto que consciente, apontam os especialistas. “Quando esse padrão se repete com frequência, quase sempre existem fatores emocionais mais profundos envolvidos, mesmo que as pessoas não percebam isso de forma clara”, diz Artur Azevedo Costa, professor da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica.
A neurociência ajuda a explicar a preferência contemporânea por relações curtas e sucessivas. Estudos feitos com uso de ressonância magnética, conduzidos pela antropóloga americana Helen Fisher, pesquisadora do centro de referência em sexualidade Kinsey Institute, mostram que a conquista amorosa atua sobre regiões do cérebro ricas em dopamina, neurotransmissor que age ativando o sistema de recompensas. A substância também está ligada à expectativa e à motivação para alcançar algo desejado. Por isso, a fase inicial de um romance costuma desencadear reações particularmente intensas de euforia, classificadas como “quase aditivas” pelos pesquisadores. A química, contudo, dura pouco, infelizmente. “O início traz entusiasmo, validação, o famoso frio na barriga”, diz a psicóloga Pietra Breyer. “Com o tempo, o entusiasmo diminui e surgem as primeiras frustrações.”
Se até pouco tempo atrás apenas os homens se sentiam livres (e autorizados) a cultivar múltiplos envolvimentos, cada vez mais mulheres têm se permitido experimentar uma vida amorosa sem amarras. Levantamento do Instituto QualiBest aponta que 48% das brasileiras entre 18 e 29 anos buscam relações de curto prazo em aplicativos de namoro. “Sou uma pessoa namoradeira”, afirma a atriz Glória Maciel, de 29 anos, que vê nessa liberdade a chance de conhecer diferentes histórias. No último ano, ela contabilizou 32 encontros com onze pessoas, em seis cidades diferentes. “É como abrir um livro novo”, compara, folheando a própria vida. Ainda há muitos capítulos a serem escritos nessa era marcada por conexões cada vez mais fluidas, que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman classificou como modernidade líquida. Os tempos estão mudando, de fato. Para muitas pessoas, vale a seguinte regra: que seja eterno até o próximo match.