Parem as máquinas. Ou melhor: parem de se conectar às máquinas. Esse é o grito de guerra de um número cada vez maior de cidadãos mundo afora que vêm se rebelando contra a rotina dominada por telas. Uma das brasileiras que representam essa contracorrente em um planeta cada dia mais on-line é Antonia Brandão Teixeira, cofundadora do movimento Desconecta. “A ideia não é proibir, mas orientar o uso de forma mais produtiva e saudável”, diz, ao resumir a filosofia desplugada. Na casa da paulistana, não há TV nos quartos e os filhos, de 4, 11 e 12 anos, não têm celular. Ela mesma procura ser o exemplo: restringe as trocas de mensagens no WhatsApp e não leva o smartphone... [Leia mais]
Parem as máquinas. Ou melhor: parem de se conectar às máquinas. Esse é o grito de guerra de um número cada vez maior de cidadãos mundo afora que vêm se rebelando contra a rotina dominada por telas. Uma das brasileiras que representam essa contracorrente em um planeta cada dia mais on-line é Antonia Brandão Teixeira, cofundadora do movimento Desconecta. “A ideia não é proibir, mas orientar o uso de forma mais produtiva e saudável”, diz, ao resumir a filosofia desplugada. Na casa da paulistana, não há TV nos quartos e os filhos, de 4, 11 e 12 anos, não têm celular. Ela mesma procura ser o exemplo: restringe as trocas de mensagens no WhatsApp e não leva o smartphone para a cama ou a mesa. Diante dos apelos da primogênita, comprou um dumbphone, aparelho sem conexão à internet, para a filha, mas ela recusou. “Como tem cara de telefone de vó, ficou constrangida de usar na presença dos amigos”, diz a mãe.
Mas como se desconectar em uma sociedade que exige acesso à internet para trabalhar, fazer pedidos em serviços de delivery, monitorar os filhos e até se divertir? Para se ter noção, os brasileiros passam, em média, mais de nove horas por dia conectados — um volume que instala o país entre os líderes mundiais em tempo de tela, superando o índice global, de cerca de sete horas. É praticamente um terço do dia. “O movimento off-line aparece como um possível caminho, não como imposição, mas como escolha”, diz Raquel Cruz, coordenadora do Artigo 19, organização de direitos humanos que atua por um ambiente digital mais seguro. A ideia é lembrar que existe vida lá fora — fora das mídias sociais, dos games e dos vídeos no YouTube.
Formado em 2018, durante a Bienal de São Paulo, o coletivo Amigos da Atenção se transformou em um movimento internacional que busca resgatar a importância de parar e dedicar minutos ou horas a alguma atividade muito além das telas. “Há uma diferença entre simplesmente se desconectar e, de fato, compreender a atenção como eixo central desse debate”, diz Vitória Oliveira, uma das ativistas do coletivo. No dia a dia, muitas pessoas passam a considerar a via da desconexão a partir de um incômodo — uma sensação de desconforto com a forma de se relacionarem com a tecnologia. Foi o que aconteceu com Vitória. Em determinado momento, excluiu todas as redes sociais. Hoje, usa apenas uma, restrita a amigos e que não fica instalada no celular. “É um exercício de intencionalidade: só acesso quando realmente quero, não por impulso.”
As plataformas, porém, não medem esforços para seduzir e recapturar quem tenta sair da adesiva ágora. Nada contra o legítimo direito de toda empresa de defender seus produtos e oferecê-los ao mercado, em movimento natural da saudável livre iniciativa. O que se aconselha, como em tudo, é o equilíbrio — e mesmo dentro das tais big techs há grupos que já trabalham com os novos humores, a olhar para a sociedade. A empresária Susie Lau-Kuppen, de São Paulo, descreve uma relação ambígua com as redes sociais. “Há ambientes em que me sinto mal e chego a excluir minha conta, mas acabo voltando”, diz. A dinâmica, ela reflete, se aproxima de um comportamento compulsivo, em que a consciência do desconforto não basta para interromper o círculo vicioso. É por essas e outras que o marido, o alemão Andreas Lau-Kuppen, não se dobra: “Nunca tive conta no Instagram ou no TikTok e parei de usar o Facebook em 2012”. Ele prefere evitar o “desperdício on-line” e utilizar o tempo para correr e treinar boxe na praia.
Para alguns cidadãos, a desconexão total surge como estratégia diante da dificuldade de estabelecer limites — uma espécie de abstinência deliberada. A decisão pode funcionar como uma tentativa legítima de manter limites. “É algo que Freud já indicava como necessário para a vida em sociedade: a renúncia a certas satisfações imediatas”, diz Fernanda Samico, coordenadora da pós-graduação em psicanálise da Casa do Saber. Uma lição que deveria ser aprendida desde a infância. E que inclusive motivou a criação do movimento Desconecta. Hoje considerada uma das iniciativas mais estruturadas do país, ela propõe um pacto coletivo para adiar o acesso a smartphones e redes sociais como forma de reduzir a pressão que leva à hiperconexão precoce — embora os desafios, claro, estejam a um passo de nós, dentro de casa, como mostra a experiência da fundadora Antonia.
Se entre gente grande o apelo pela desconexão se infiltra aos poucos — ou abruptamente, como depois de uma crise de nervos —, ganha corpo o consenso de que, entre crianças e adolescentes, os cuidados com o abuso são indispensáveis. E a pressão de famílias, educadores e especialistas já começa a se refletir em políticas públicas. Desde o ano passado, o uso de celulares foi proibido em escolas de todo o Brasil, medida que vem sendo acompanhada por restrições em algumas instituições de ensino superior. O tema deixou de ser apenas uma questão privada e passou a integrar o debate regulatório. Na quarta 18, também entrou em vigor o estatuto conhecido como ECA Digital, uma regulamentação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual — apelidada de Lei Felca, em referência ao influenciador que denunciou perigos nas redes, como a sexualização infantil — que reconhece que a vida on-line requer limites, inclusive legais. A nova norma obriga plataformas a vincularem contas de menores de 16 anos aos responsáveis, impõe bloqueio de conteúdos inadequados, proíbe a autodeclaração de idade e restringe práticas consideradas manipulativas — como reprodução automática de vídeos e rolagem infinita. “Depois de um experimento massivo com uma geração inteira, sem entender completamente seus efeitos, precisamos reconstruir as barreiras que removemos”, analisa Jonathan Haidt. Em outras palavras, até as big techs terão de se mobilizar a favor, de algum modo, da vida desconectada.
Militância pela atenção