Aos 66 anos, Mabel da Silva Cardoso Aroeira cuida da mãe, de 90, e do marido, de 80, ambos com diagnóstico de Alzheimer. “Se eu não estiver bem, quem cuida deles?”, pergunta. O depoimento foi colhido por um projeto de extensão do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que oferece apoio psicológico a familiares de pessoas idosas com demência. Ele revela o que o país inteiro esconde: o envelhecimento populacional do Brasil repousa sobre uma base frágil e silenciosa. Trata-se do trabalho invisível dos cuidadores informais — tão comuns hoje em dia nas cidades —,... [Leia mais]
Aos 66 anos, Mabel da Silva Cardoso Aroeira cuida da mãe, de 90, e do marido, de 80, ambos com diagnóstico de Alzheimer. “Se eu não estiver bem, quem cuida deles?”, pergunta. O depoimento foi colhido por um projeto de extensão do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que oferece apoio psicológico a familiares de pessoas idosas com demência. Ele revela o que o país inteiro esconde: o envelhecimento populacional do Brasil repousa sobre uma base frágil e silenciosa. Trata-se do trabalho invisível dos cuidadores informais — tão comuns hoje em dia nas cidades —, majoritariamente mulheres, que carregam nos ombros o peso da longevidade sem qualquer amparo público.
De acordo com o IBGE, o número de brasileiros responsáveis por idosos aumentou, aproximadamente, 38%, entre 2016 e 2019. Passou de 3,7 para 5,1 milhões de profissionais informais nessa área, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, de 2019. Quase todos os cuidadores são familiares, que atuam sem qualquer vínculo empregatício ou remuneração. O envelhecimento, antes uma conquista demográfica, tornou-se também um desafio econômico e social. Em muitos lares, uma filha ou nora abandonou o mercado de trabalho para cuidar do respectivo parente; em outros, uma vizinha recebe pequenas ajudas para exercer a função. O cuidado virou improviso.
De acordo com o estudo de 2021, Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, realizada pelo Instituto Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as brasileiras respondem por cerca de 80% do tempo total dedicado aos cuidados não remunerados. Essa disparidade inclui o trato com pessoas idosas. O levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que a maioria dos cuidadores informais são mulheres, frequentemente familiares, que dedicam muitas horas diárias à tarefa e convivem com altos níveis de estresse e exaustão física.
Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, se o Brasil investisse em políticas de cuidado, que permitissem a participação plena das mulheres no mercado, o PIB poderia crescer até 4% no longo prazo. Em outras palavras, cada mulher que abandona o emprego para cuidar de um idoso representa também uma perda de capital humano e de competitividade. O custo da omissão pública se espalha pela economia em forma de desigualdade e crescimento desperdiçado.
Cuidar de alguém dependente é tarefa difícil em qualquer contexto, mas nas cidades brasileiras o desafio é dobrado. Moradias pequenas e sem adaptação, transporte coletivo precário e longas distâncias até unidades de saúde fazem do cotidiano uma espécie de corrida com obstáculos. Nas periferias, onde o Estado não chega, o cuidado é um ato de resistência, feito entre o trabalho, os filhos — e as contas. Pesquisas da Fiocruz e estudos municipais indicam que apenas uma pequena fração das capitais dispõe de programas de suporte a cuidadores informais; a maioria não conta com políticas estruturadas.
Durante a covid-19, relatos coletados pela Fiocruz e pela UFRJ mostraram um aumento expressivo no país de estresse e isolamento entre cuidadores, sem rede de apoio e com medo de levar o vírus para dentro de casa. Como conclui o relatório Cuida-COVID, coordenado por Daniel Groisman e Dalia Romero: “Os resultados evidenciam o aumento da carga de trabalho, do sofrimento psíquico e do sentimento de isolamento entre pessoas cuidadoras de idosos durante a pandemia de covid-19, revelando o quanto o cuidado, especialmente o exercido por mulheres, foi uma das frentes mais sacrificadas e menos reconhecidas da crise sanitária.” Organismos internacionais alertam que a falta de aplicabilidade das políticas de cuidado pode pressionar fortemente os orçamentos de saúde nas próximas décadas.
A economista Ana Amélia Camarano, do Ipea, em entrevista ao portal da instituição, alertou: “O cuidado é o novo desafio estrutural do envelhecimento brasileiro. Sem políticas de apoio, ele se transforma em tragédia doméstica”. O Brasil ainda trata o cuidado como assunto de família, não como política pública. A profissão de cuidador, embora existam projetos em discussão no Congresso, sofre com a falta de uma regulamentação específica (atualmente, quem se dedica a essa tarefa pode ser considerado empregado doméstico). Programas anunciados pelo governo, como o Cuida Mais Brasil e a Política Nacional de Cuidados “Brasil que cuida” foram passos iniciais, entretanto sua implementação e cobertura ainda são embrionárias.
Nações que envelheceram antes entenderam que cuidar é parte da infraestrutura social. O Japão, por exemplo, em 2000, criou o Long-Term Care Insurance, sistema público que oferece subsídio e capacitação a cuidadores familiares. A Alemanha mantém licenças remuneradas para quem precisa deixar o emprego temporariamente para ficar com um parente. Aqui, nada disso existe.
O Brasil, uma das nações mais urbanizadas do mundo — com cerca de 87% da população vivendo em cidades — precisa fazer uma escolha: continuar terceirizando o cuidado para quem já assume múltiplas responsabilidades ou reconhecê-lo como um pilar da saúde pública e da dignidade humana. O país envelhece em ritmo acelerado, e essa transformação ocorre em cidades que ainda não se prepararam para abrigar vidas mais longas. A urbanização, marcada por desigualdades e pela falta de planejamento, tem exposto limitações que afetam diretamente o bem-estar da população idosa. Em muitos contextos, a velhice ainda significa lidar com barreiras físicas, redes de apoio frágeis e acesso restrito a serviços essenciais. A longevidade, que deveria ser motivo de celebração, revela também o quanto as políticas públicas precisam evoluir a fim de que viver mais não seja um peso para ninguém.
* Gabriela Vasconcelos é economista, urbanista social e coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, é mestranda em Saúde Pública na FSP-USP
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