No início, tudo parece girar em torno do corpo, da libido e da potência. Mais força e mais definição em um projeto idealizado de corpo escultural. Mas há uma parte invisível dessa transformação que raramente entra na narrativa: o cérebro. E, com ele, muda a forma como alguém se relaciona com quem está ao lado.
A ciência tem insistido em uma mensagem incômoda: esteroides anabolizantes como a testosterona não atuam apenas no músculo. Eles modulam emoções, alteram impulsos, interferem no julgamento e podem distorcer a percepção do outro.
Podemos listar os... [Leia mais]
No início, tudo parece girar em torno do corpo, da libido e da potência. Mais força e mais definição em um projeto idealizado de corpo escultural. Mas há uma parte invisível dessa transformação que raramente entra na narrativa: o cérebro. E, com ele, muda a forma como alguém se relaciona com quem está ao lado.
A ciência tem insistido em uma mensagem incômoda: esteroides anabolizantes como a testosterona não atuam apenas no músculo. Eles modulam emoções, alteram impulsos, interferem no julgamento e podem distorcer a percepção do outro.
Podemos listar os problemas: dependência, tolerância e síndrome de abstinência, além de irritabilidade, ansiedade, alterações de memória, comportamentos de risco e episódios psiquiátricos que podem incluir euforia, mania, delírios, paranoia, depressão e aumento do risco de pensamentos suicidas. Não é apenas uma mudança física. É uma mudança de funcionamento cerebral.
E é nesse deslocamento quase imperceptível no início que muitas histórias começam a se desenhar. A irritabilidade aparece primeiro. Depois, a impaciência. Pequenos conflitos ganham intensidade desproporcional. O que antes era diálogo vira confronto. O que era desconforto vira explosão.
Aos poucos, o espaço entre estímulo e reação diminui e, com ele, a capacidade de conter o impulso. Não se trata apenas de “ficar mais agressivo”. Trata-se de perder a calibragem emocional.
Usuários dependentes de esteroides apresentam dificuldade em reconhecer emoções, especialmente o medo, no rosto de outras pessoas. Em termos humanos, isso significa algo simples e devastador: a incapacidade de perceber o limite. E o risco deixa de ser teórico. Ele passa a ser cotidiano.
Um alerta baseado em evidências
Mais recentemente, esse elo foi examinado de forma direta no contexto da violência por parceiro íntimo. Os dados são claros: usuários de testosterona e afins apresentam maior probabilidade de cometer abuso físico, psicológico e sexual.
Em um estudo dinamarquês com 545 usuários de esteroides anabolizantes e 5 450 pessoas que nunca utilizaram essas drogas, usuários de esteroides apresentaram nove vezes mais risco de cometer crime, e, ao fim de 11 anos de seguimento, 18,5% haviam sido presos por crimes violentos não atribuíveis a fatores socioeconômicos.
A violência deixa de ser um desvio eventual. Passa a ser um desfecho possível. E, como quase sempre acontece, ela não é distribuída de forma neutra. As vítimas têm rosto. Têm gênero. Têm história.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre performance e passa a ser sobre proteção. Porque existe uma linha fina, mas real, entre a desregulação emocional e a violência grave. E, em alguns casos, essa linha é atravessada de forma irreversível.
Um olhar para a violência contra a mulher
O feminicídio, na sua forma mais brutal, raramente nasce de um único fator. Ele é multifatorial, complexo, atravessado por cultura, história, dinâmica relacional. Mas ignorar elementos biológicos que amplificam agressividade, reduzem controle inibitório e distorcem a percepção do outro é fechar os olhos para uma parte da equação. E os esteroides anabolizantes potencializam tudo isso.
Do ponto de vista biológico, há plausibilidade para esses comportamentos. Estudos de neuroimagem mostram alterações em regiões cerebrais ligadas ao controle de impulsos e à regulação emocional em usuários crônicos de testosterona. Há também evidências de alterações neuroquímicas e redução de fatores ligados à plasticidade cerebral. Em termos simples: o freio pode falhar exatamente quando mais se precisa dele.
E, ainda assim, há algo que a ciência também mostra e que muda o tom dessa história. Quando informados, muitos usuários de testosterona querem ajuda. Em um estudo norueguês, mais de 70% dos usuários demonstraram interesse em tratamento após receberem informação adequada.
Isso desmonta uma ideia perigosa: a de que não há o que fazer. Há, sim, mas exige uma mudança de postura. Exige sair da banalização que transforma risco em estilo de vida ou em julgamento vazio e que afasta quem mais precisa de cuidado.
Porque, no fim, essa não é apenas uma discussão sobre hormônios e seu mau uso. É uma discussão sobre segurança. Sobre relações. Sobre vidas que poderiam seguir outro curso se alguém, em algum momento, tivesse dito com clareza que força sem controle não é força. É risco. E que, às vezes, o maior dano não aparece apenas no corpo de quem usa. Mas na vida de quem está ao lado.