Antes do silêncio imposto pelo serviço militar, o BTS já não era apenas uma potência musical, mas também um fenômeno de moda. Sentados na primeira fila, moviam cifras invisíveis; vestidos por gigantes como Dior, Gucci, Calvin Klein e Celine, transformavam cada aparição em capital simbólico. No último ato coletivo, no Grammy de 2022, vestiram Louis Vuitton sob a assinatura de Virgil Abloh. Era o ápice de uma narrativa global.
Ao “The New York Times”, o designer Jay Songzio admitiu o peso do convite: disse que, “no mercado internacional de luxo, é difícil para um designer coreano independente”, e que ver “ícones coreanos escolherem... [Leia mais]
Antes do silêncio imposto pelo serviço militar, o BTS já não era apenas uma potência musical, mas também um fenômeno de moda. Sentados na primeira fila, moviam cifras invisíveis; vestidos por gigantes como Dior, Gucci, Calvin Klein e Celine, transformavam cada aparição em capital simbólico. No último ato coletivo, no Grammy de 2022, vestiram Louis Vuitton sob a assinatura de Virgil Abloh. Era o ápice de uma narrativa global.
Ao “The New York Times”, o designer Jay Songzio admitiu o peso do convite: disse que, “no mercado internacional de luxo, é difícil para um designer coreano independente”, e que ver “ícones coreanos escolherem uma marca coreana para um momento histórico” foi algo “emocionante” — e, acima de tudo, simbólico.
A coleção, batizada de “Armadura Lírica”, traduz exatamente esse gesto. Há referências diretas às armaduras da dinastia Joseon, mas sem rigidez: a ideia inicial de estruturas pesadas foi abandonada em favor da fluidez do hanbok, o traje tradicional coreano (lembram da Janja, que vestiu um para ser recepcionada pela primeira-dama do país?). O resultado é uma tensão bonita entre proteção e movimento, passado e futuro. Tecidos naturais, algodão e linho trabalhados na Coreia, ganham textura quase pictórica, como pinceladas sobre papel antigo.
E talvez o conceito mais poderoso esteja numa palavra: “han”. Como explicou Songzio ao jornal americano, trata-se de um sentimento difícil de traduzir — algo entre saudade, dor e resistência, nascido de uma história turbulenta. “Tentamos reimaginar os membros do BTS como figuras heroicas, conduzindo nossa cultura para um futuro mais luminoso”, disse.
Cada integrante surge como um personagem próprio: RM, o líder-herói; Jin, o artista; Jimin, o poeta; Suga, o arquiteto; Jungkook, a vanguarda. J-Hope encarna o Sorigun, uma espécie de homem do som que mistura tradição e musicalidade; V, o Doryeong, figura que oscila entre nobreza e sofisticação. É quase mitologia pop costurada em tecido técnico.
E há um detalhe revelador: desta vez, a identidade coletiva dá espaço ao indivíduo. Segundo o estilista, antes do hiato o grupo operava mais como unidade; agora, cada membro carrega uma assinatura própria, construída em reuniões individuais, ajustes minuciosos e idas e vindas criativas.
Na prática, isso aparece em peças mutáveis — e aqui entra o truque de styling que faz o look ganhar vida no palco. Cada figurino foi pensado para se transformar: zíperes ocultos, volumes que se expandem, camadas removíveis. J-Hope veste uma calça cargo de estética militar que se abre em proporções dramáticas; RM tem um casaco que se desdobra em capa. Metamorfose como conceito e, no caso deles, como necessidade já que são horas de performance.
Por que ali que está em jogo não é apenas estética. É reposicionamento. E o BTS volta não como produto do Ocidente, mas como autor de uma narrativa própria. A moda deixa de ser vitrine e passa a ser discurso. E, nesse retorno, talvez esteja o gesto mais potente do grupo até hoje: mostrar que o futuro global pode, sim, ser escrito a partir de raízes locais — e que estilo, quando bem usado, também é uma forma de soberania cultural.