Todos os meses, mulheres em idade fértil embarcam numa montanha-russa hormonal, com curvas, subidas e descidas físicas e emocionais. Ainda assim, entre a cólica e a falta de energia, elas trabalham, cuidam da casa e dos filhos e, por que não?, se exercitam. Mas, depois de ouvir queixas sobre um possível impacto dos diferentes períodos do ciclo menstrual na prática de atividade física, pesquisadores começaram a levar a sério essa história e a investigar a fundo a relação entre a gangorra dos hormônios femininos e o desempenho esportivo. Apesar de ser um campo novo na ciência, a prescrição de treinos de acordo com o período do mês ganha popularidade nas redes sociais. N... [Leia mais]
Todos os meses, mulheres em idade fértil embarcam numa montanha-russa hormonal, com curvas, subidas e descidas físicas e emocionais. Ainda assim, entre a cólica e a falta de energia, elas trabalham, cuidam da casa e dos filhos e, por que não?, se exercitam. Mas, depois de ouvir queixas sobre um possível impacto dos diferentes períodos do ciclo menstrual na prática de atividade física, pesquisadores começaram a levar a sério essa história e a investigar a fundo a relação entre a gangorra dos hormônios femininos e o desempenho esportivo. Apesar de ser um campo novo na ciência, a prescrição de treinos de acordo com o período do mês ganha popularidade nas redes sociais. No TikTok, a ideia de sincronizar o relógio biológico com a academia virou um fenômeno com a hashtag #cyclesyncing, que já acumula mais de 280 milhões de visualizações, especialmente entre jovens.
Embora os efeitos do ciclo menstrual na resposta aos exercícios possam variar e ser mais ou menos sutis, crescem as evidências de que as repercussões físicas e psíquicas causadas pelas oscilações dos hormônios não devem ser desprezadas. De fato, há um descompasso histórico nos estudos que focam as particularidades do organismo feminino — seja na reação a remédios, seja no âmbito esportivo. E o desafio se torna ainda maior quando se leva em conta que, numa mesma mulher, o ciclo pode sofrer alterações de um mês para o outro. Na pesquisa, unir grupos em perfeito alinhamento, do sangramento à ovulação, para a coleta de dados é tarefa complexa. Mas começa a ganhar força, tanto entre atletas profissionais como amadoras, a percepção de que elas não reagem da mesma forma aos estímulos e às modalidades o mês todo. Alguns dias são explosivos, outros de apatia. Culpa de quem? Dos hormônios.
Em uma análise recém-publicada pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, foram apresentados indícios de que o sobe e desce dos hormônios femininos não afeta diretamente a capacidade de fazer exercícios intensos, mas mexe com a percepção da fadiga. “A quantidade de esforço que uma mulher aguenta ao longo do ciclo parece ser a mesma, mas não o modo como se sente em relação a isso”, diz a pesquisadora Mira Schoeberlein, autora do trabalho, pioneiro por dosar não só a flutuação hormonal, mas também outros parâmetros, como frequência cardíaca.
Em atletas profissionais, as investigações já oferecem resultados mais palpáveis. Em um estudo realizado na Espanha e no Reino Unido com 33 jogadoras de futebol, o objetivo foi avaliar a influência do ciclo na ocorrência de lesões durante as partidas. Constatou-se que, na fase de sangramento, a incidência de machucados em músculos, tendões e ligamentos era o triplo daquela observada fora desse período de baixa hormonal e perda de sangue. Não só: as lesões no período da menstruação eram mais graves e de recuperação lenta.
Apesar das provas que começam a se acumular, ainda não há um consenso científico ou uma diretriz formal para nortear as mulheres no dia a dia de academia. “Existem, sim, flutuações hormonais, mas não há uma proposta uniformizada de resposta a elas”, afirma a endocrinologista Andréa Fioretti, coordenadora do Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “Na teoria, em algumas fases há mais dificuldades, mas as mulheres, sobretudo as atletas, têm alta capacidade de superação para evitar a queda da performance.” A ponderação é vital diante das tendências de treinos para o ciclo menstrual que pululam na internet. Pode fazer sentido pegar leve e optar por uma sessão de ioga no período de marasmo, mas não necessariamente o programa de exercícios de uma mulher cai como uma luva para outra. A melhor recomendação: conhecer e calibrar limites. Em poucas palavras, respeitar os ritmos do corpo.