Práticas sociais, depoimentos, documentos e artefatos elaborados na experiência urbana têm relevância para teorias, dados e evidências que conformam o saber técnico-científico, que é socialmente legitimado. No entanto, quais as possibilidades de grupos historicamente sub-representados no campo acadêmico e na gestão pública serem reconhecidos como produtores de conhecimento? Qual o lugar de saberes, fazeres, práxis e políticas elaboradas por mulheres, negros, indígenas, moradores de periferias e favelas no pensar a cidade? Como amplificar esse poder criativo contra-hegemônico e influir em debates para além do campo político?
Há seis anos, essas são algumas... [Leia mais]
Práticas sociais, depoimentos, documentos e artefatos elaborados na experiência urbana têm relevância para teorias, dados e evidências que conformam o saber técnico-científico, que é socialmente legitimado. No entanto, quais as possibilidades de grupos historicamente sub-representados no campo acadêmico e na gestão pública serem reconhecidos como produtores de conhecimento? Qual o lugar de saberes, fazeres, práxis e políticas elaboradas por mulheres, negros, indígenas, moradores de periferias e favelas no pensar a cidade? Como amplificar esse poder criativo contra-hegemônico e influir em debates para além do campo político?
Há seis anos, essas são algumas das perguntas que nos mobilizam como integrantes da Iniciativa Mulheres e Territórios do Centro de Estudos das Cidades, do Laboratório Arq.Futuro do Insper, cujo objetivo é contribuir para a promoção de direitos e a melhoria das condições de vida urbana a partir de experiências femininas em territórios populares. A Iniciativa nasceu de um grupo reunido durante a pandemia de covid-19 formado por mulheres, líderes comunitárias, em São Paulo e no Rio de Janeiro. As temáticas do trabalho delas: moradia, educação, direitos humanos e direito à cidade.
Nossas primeiras atribuições se relacionaram ao combate à insegurança sanitária e alimentar decorrente do surto planetário do coronavírus, por meio do diálogo com empresas e entidades do terceiro setor. Mais do que campanhas educativas e distribuição de cestas básicas, botijões de gás e máscaras, buscou-se refletir o quanto os repertórios acumulados sobre os territórios e suas populações faziam diferença para que os recursos alcançassem quem estava sendo negligenciado por outras ações. Foi assim que surgiu um modelo de resposta à crise humanitária instalada, baseado em mapeamento local de demandas, autonomia das lideranças na tomada de decisões, articulação de redes comunitárias, transparência e desburocratização na gestão de recursos.
Com a consolidação do trabalho no Insper, já realizamos pesquisas sobre mulheres empreendedoras e conforto térmico em favela, eventos relativos à justiça climática, direitos sexuais e reprodutivos, atividades formativas sobre produção e uso de dados em periferias, além de termos participado de disciplinas da graduação e pós-graduação e transformado territórios em espaços de aprendizagem para estudantes de variados perfis.
Para nós, o aprofundamento das relações com a academia não é feito sem conflitos ou mediações. Ao mesmo tempo, tem sido uma oportunidade de interagir com especialistas diversos, de nos apropriarmos de códigos e saberes que contribuem para o fazer local e a circulação mais ampla das agendas que defendemos e, sobretudo, de aplicar nos territórios resultados gerados nessa interação.
A Iniciativa se aproxima de outras ações realizadas no ensino superior que promovem a ecologia de saberes. Parte, portanto, do reconhecimento que lideranças populares, com suas formações políticas, acadêmicas e/ou territoriais, são protagonistas de soluções, inovações e formas de interpretar as cidades que participam das teorias urbanas, do mesmo modo que se mostram fundamentais para a transformação socioespacial.