A geração Z, de jovens com até 30 anos, que nasceu e cresceu em um mundo que pulsa ao ritmo das redes, vem dissolvendo tabus, agitando bandeiras em prol da diversidade e sublinhando no glossário moderno a ideia de que ambição é bom, desde que não se sobreponha ao bem-estar. Nesse caldo, não cabe seguir a vida sob moldura muito rígida, em que trocar alianças e ter filhos seria um percurso inescapável. Tudo isso junto e misturado resulta em uma turma de mente mais arejada, sem dúvida. Mas, como nada é tão simples assim, também ela expõe suas contradições, sobretudo quando postos lado a lado homens e mulheres desse estrato populacional que tanto atiça a curiosidade por... [Leia mais]
A geração Z, de jovens com até 30 anos, que nasceu e cresceu em um mundo que pulsa ao ritmo das redes, vem dissolvendo tabus, agitando bandeiras em prol da diversidade e sublinhando no glossário moderno a ideia de que ambição é bom, desde que não se sobreponha ao bem-estar. Nesse caldo, não cabe seguir a vida sob moldura muito rígida, em que trocar alianças e ter filhos seria um percurso inescapável. Tudo isso junto e misturado resulta em uma turma de mente mais arejada, sem dúvida. Mas, como nada é tão simples assim, também ela expõe suas contradições, sobretudo quando postos lado a lado homens e mulheres desse estrato populacional que tanto atiça a curiosidade por representar o novo. E é aí que salta aos olhos uma surpresa: a ala masculina revela-se perdida, contrariada e até indignada, quem diria, com a modernidade em forma de empoderamento feminino. Eles tentam se entender em uma era na qual elas, depois da eclosão dos movimentos dos anos 1960, conseguiram cavar espaço, livres das amarras sexistas.
Não que a juventude de hoje se ponha de costas para as sacudidas que conduzem as sociedades na trilha do progresso: 41% dos entrevistados, por exemplo, canalizam sua admiração a mulheres bem-sucedidas, o que vem a reforçar o quão tem sido difícil e nada linear para eles encontrar um norte. O contexto de tantas incertezas em que estão mergulhados, algumas de natureza bem prática, como dar o duro pontapé inicial na carreira, acaba fazendo com que enalteçam tempos de maior estabilidade que ficaram para trás. “Muitos sentem que o futuro não será tão próspero quanto o de seus pais, atados que estão ao ciclo de baixos salários, desemprego e às dificuldades de se fincar no mundo adulto. Em meio à frustração, eles vão à caça de valores do passado”, disse a VEJA Heejung Chung, diretora do Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College, entidade à frente da pesquisa.
A conquista de terreno, hoje tão evidente entre jovens mulheres, traz à banda masculina insegurança em uma fase da existência em que valores e autoestima estão sendo cimentados. Na hora de estabelecer elo afetivo, as dúvidas por parte deles afloram em uma gradação diferente de antes. “Muitos relatam não saber como abordar as meninas, que estão muito mais donas de si, e correm atrás de manuais de respostas prontas para questões profundas, daí o perigo”, diz a psicanalista Carolina Delboni, especialista em adolescência.
Recorrer ao solo conhecido, mesmo repleto de distorções sobre a masculinidade que tantas raízes têm nos velhos modelos patriarcais, pode soar como um equivocado porto seguro — mesmo assim, para muitos, é um alívio que os livra do bem mais complexo desafio da reinvenção diante dos novos ventos. Às vezes, o machismo se revela em camadas quase invisíveis, mas para lá de incômodas para quem está na mira. O personal trainer Vitor Machado, 27 anos, demorou a dar-se conta de que havia algo de inaceitável no trato com a ex-namorada e decidiu mudar. “Eu podia sair para a balada, encontrar os amigos, e ela não. Como fazia com minha namorada o que eu não queria para mim?”, lembra ele, que não põe travas à conversa. “Tenho um círculo de amigos que se orgulham de falas machistas e reprimem mulheres”, reconhece.
É no terreno pouco regulado das redes que discursos impulsionados pelo atraso ganham espaço e atraem tantos jovens em plena formação da identidade. Eles se expõem sem filtros à chamada machosfera. Vídeos curtos promovem um passeio completo pelo lado mais obscuro de um pensamento que, no sumo, prega a submissão feminina sustentando que tudo gira em torno do que seria a “natureza humana”. Um bem-sucedido expoente dessa abominável cartilha é o influenciador Gabriel Breier, 27 anos e 1,6 milhão de seguidores, cuja conta havia, até quinta-feira 2, sido suspensa pelo Instagram, tamanha aberração ali contida. A humanidade foi, ao menos por ora, poupada de “aprender” sobre os atributos de um “macho alfa”. Ainda ativo no grupo “soldados”, do Telegram, porém, Gabriel diz a que veio. “O homem que deixa a mulher trabalhar não tem que usar cueca, mas calcinha”, fala. Ao filho de 11 meses, gaba-se de dar armas de brinquedo, ferramenta para criar “homem de verdade, cheio de testosterona”.
Enredados em padrões inalcançáveis, e muitas vezes indesejáveis de masculinidade, os homens pagam alto preço emocional. De acordo com a pesquisa do King’s College, 30% dos meninos da geração Z acham inapropriado pronunciar a frase “eu te amo” a amigos, exemplo simples de freio à demonstração de afeto, considerado prejudicial por especialistas. “É uma violência contra eles próprios”, avalia a psicanalista Carolina Delboni. Pois sabidamente a história nunca é linear quando pilares sobre os quais a sociedade está fincada tremem, testemunhando muitas idas e vindas. “Mudanças culturais nunca se dão de forma homogênea”, enfatiza a socióloga Maira Covre, coordenadora do núcleo de estudos sobre relações de gênero da UERJ. Levou tempo para se avançar rumo a um mundo mais igualitário para homens e mulheres. Sempre se espera que os mais novos aprendam com erros das gerações passadas e que com suas cabeças mais arejadas façam um mundo melhor. Essa roda da evolução corre o risco de ser interrompida quando a juventude flerta com o atraso. Machosfera é um tipo de retrocesso inadmissível.