Quando vai a escolas dar palestras, o pediatra e psicanalista Paulo Schiller costuma ser confrontado com a clássica pergunta: “Mas tudo é culpa dos pais?” Numa dessas ocasiões, ele abriu os braços, ergueu os ombros e sorriu em silêncio. A plateia gargalhou. Quem cala consente e, segundo o médico, o humor favorece a “emergência da verdade”.
“A paixão de uma parcela expressiva das pessoas pela mentira, pela vulgaridade, pela violência, tem sua origem num conjunto de situações que determinam a estrutura do psiquismo desde os primeiros instantes de vida. A paixão pela mentira existe, em graus diversos para cada um de nós,... [Leia mais]
Quando vai a escolas dar palestras, o pediatra e psicanalista Paulo Schiller costuma ser confrontado com a clássica pergunta: “Mas tudo é culpa dos pais?” Numa dessas ocasiões, ele abriu os braços, ergueu os ombros e sorriu em silêncio. A plateia gargalhou. Quem cala consente e, segundo o médico, o humor favorece a “emergência da verdade”.
“A paixão de uma parcela expressiva das pessoas pela mentira, pela vulgaridade, pela violência, tem sua origem num conjunto de situações que determinam a estrutura do psiquismo desde os primeiros instantes de vida. A paixão pela mentira existe, em graus diversos para cada um de nós, a partir de circunstâncias conhecidas de todos porém encobertas por séculos de distorções. Ela depende de vários fatores: de que os pais não fazem o melhor pelos filhos, de que o amor deles não é incondicional, de que a valorização dos gêneros não é igualitária, de que as perversões existem em todas as linhagens familiares…”
Eis o diagnóstico nu e cru, sem medo de desagradar, do autor.
É dentro de casa que também se começa a chocar o ovo da tirania, da personalidade que, à frente de uma comunidade ou Estado, elevará o ego à máxima potência, pisando sobre as costas do outro, dos outros. “Se a conjuntura histórica não for favorável à emergência de um governo autoritário, os candidatos a tiranos seguirão seus laços perversos em outros campos, como o religioso, no trabalho, nas relações pessoais e nos vínculos familiares”, anota o autor.
Numa obra que não obedece a um esqueleto tradicional – talvez emulando o vai e vem das sessões no divã -, Schiller, que também é tradutor (verteu do húngaro para o português dois prêmios Nobel, inclusive o atual), mescla décadas de análise com erudição para examinar as mentiras fundadoras do berço esplêndido e da pátria amada, num percurso que retrocede mais de 2 000 anos e nos coloca frente a frente com Antígona – a personificação suprema de uma crise instaurada no seio da família e do Estado.
Dos gregos até o século XXI, encontramos Shakespeare, deparamos com o estudo monumental de Adorno sobre a personalidade autoritária e, na ansiedade por diagnósticos e soluções, chegamos aos consultórios médicos que viraram máquinas de laudos de transtornos psiquiátricos e emissão de receitas de medicamentos psicotrópicos.
A saída, para Schiller, definitivamente não está em rótulos e pílulas. Está em escavar o passado (inclusive o das gerações que nos antecedem) e desconstruir, de história em história pessoal, a paixão pela mentira que engolimos e passamos adiante – e que sustenta tragédias e regimes tirânicos. Um caminho que passa, na teoria e na prática, pela psicanálise.
Com a palavra, Paulo Schiller.