A cena foi chocante, trágica, dolorosa — de verdade. Mais que tudo, expôs a resiliência de um dos últimos espetáculos ainda em voga no mundo civilizado que merecem ser chamados de circo de horrores: as touradas espanholas. Na segunda-feira 20, o experiente matador José Antonio Morante Camacho, mais conhecido como Morante de la Puebla, entrou na arena de touros de La Maestranza, em Sevilha, para executar o ritual que o transformou no mais estrelado expoente do ramo na Espanha atual: uma tradição que começa com aquele balé de atração do animal, passa pela mutilação de partes de seu corpo, como as orelhas, e termina usualmente com a fera sendo dominada e morta diante da... [Leia mais]
A cena foi chocante, trágica, dolorosa — de verdade. Mais que tudo, expôs a resiliência de um dos últimos espetáculos ainda em voga no mundo civilizado que merecem ser chamados de circo de horrores: as touradas espanholas. Na segunda-feira 20, o experiente matador José Antonio Morante Camacho, mais conhecido como Morante de la Puebla, entrou na arena de touros de La Maestranza, em Sevilha, para executar o ritual que o transformou no mais estrelado expoente do ramo na Espanha atual: uma tradição que começa com aquele balé de atração do animal, passa pela mutilação de partes de seu corpo, como as orelhas, e termina usualmente com a fera sendo dominada e morta diante da multidão. Dessa vez, entretanto, faltou combinar o script com o touro. A certa altura do show, Clandestino — sim, eis o nome do corpulento ruminante — partiu para cima do peito de Morante, que tentou dar meia-volta e correr, mas foi atingido pelo bicho com uma eloquente chifrada nas nádegas. O matador, de 46 anos, foi retirado de cena em meio a urros de dor, e mais tarde se soube a extensão do ferimento: o chifre provocou uma perfuração anal grave, com 10 centímetros de profundidade e danos a músculos do reto. Para consternação dos fãs, o astro das touradas terá pela frente uma longa jornada de recuperação.
O argumento, de novo, é que as touradas são um patrimônio cultural espanhol. “Ao ser rotuladas assim, elas ganham uma blindagem moral. É difícil questioná-las eticamente”, diz a ativista brasileira Silvana Andrade. Esse orgulho alimenta inclusive a polarização política. Em outubro passado, um projeto com apoio popular que propunha a proibição das touradas foi derrotado por ampla maioria no Parlamento do país. Partidos de direita, como PP e Vox, votaram a favor da permanência da tradição; a esquerda radical foi na direção contrária; e os socialistas do PSOE, do primeiro-ministro Pedro Sánchez, se abstiveram. A votação ilustrou a resistência notável desses espetáculos. Após sofrer uma queda brutal na virada do século, as touradas recuperaram fôlego de seis anos para cá — em 2024, 1 457 foram realizadas no país. Sua sobrevivência é embalada pelo interesse dos jovens e por subsídios de cidades e províncias, que chegaram a 42 milhões de euros no ano passado. “Podemos hoje afirmar que seu público está renovado”, diz o toureiro português, especialista no tema, João Salgueiro.
De qualquer modo, fato é que as touradas se converteram em uma questão tóxica e divisiva, distante da visão romântica do passado. Nascido em Málaga, o pintor Pablo Picasso (1881-1973) era fascinado por elas desde a infância e celebrou a dita tauromaquia numa famosa série de gravuras. O escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961) teorizou sobre sua obsessão pelo assunto em vários livros. “A tourada é a única arte em que o artista está em perigo de morte”, escreveu. Em outro efeito contraintuitivo, é possível que a sina do toureiro Morante reavive essa aura mítica no imaginário dos espanhóis, reforçando a atração pelas touradas, e não o contrário. Nos últimos anos, os dramas de saúde mental do matador comoveram o país. Diagnosticado com distúrbio bipolar, ele já anunciou sua aposentadoria das touradas várias vezes ao longo da carreira, após mergulhar em períodos de depressão — a última tentativa de sair de cena foi no ano passado. Agora, sua dor pode representar uma marcha à ré na luta contra o atraso.