00Não é difícil entender por que tantos jovens têm recorrido às redes sociais para tentar nomear o que sentem. Em poucos segundos, um vídeo fala sobre dificuldade de concentração, exaustão social, incômodo com estímulos, sensação de inadequação ou necessidade extrema de rotina. Quem assiste se reconhece. E, muitas vezes, conclui: “é isso que eu tenho”.
Esse movimento é compreensível. Ele nasce de uma geração mais aberta a falar sobre saúde mental, mais interessada em se compreender e menos disposta a naturalizar sofrimento. Isso é positivo. O problema começa quando a busca por respostas encontra, como principal... [Leia mais]
00Não é difícil entender por que tantos jovens têm recorrido às redes sociais para tentar nomear o que sentem. Em poucos segundos, um vídeo fala sobre dificuldade de concentração, exaustão social, incômodo com estímulos, sensação de inadequação ou necessidade extrema de rotina. Quem assiste se reconhece. E, muitas vezes, conclui: “é isso que eu tenho”.
Esse movimento é compreensível. Ele nasce de uma geração mais aberta a falar sobre saúde mental, mais interessada em se compreender e menos disposta a naturalizar sofrimento. Isso é positivo. O problema começa quando a busca por respostas encontra, como principal referência, um ambiente desenhado para simplificar, viralizar e confirmar percepções — e não para investigar com profundidade —.
O trabalho encontrou um cenário preocupante: a prevalência de desinformação variou de 0% a 56,9%, com desempenho consistentemente pior no TikTok do que em outras plataformas. Nos conteúdos sobre TDAH e autismo, a imprecisão apareceu com frequência ainda maior do que em outros temas de saúde mental.
Esses dados ajudam a explicar algo que já aparece no consultório e nas conversas familiares: experiências humanas complexas estão sendo transformadas em listas rápidas de “sinais”, consumidas em sequência infinita. E, quando a saúde vira linguagem de feed, o risco não está apenas no erro factual. Está também na falsa sensação de certeza.
Nem toda dificuldade de atenção é TDAH. Nem toda timidez é autismo. Nem toda oscilação emocional é transtorno. Nem todo desconforto social é patologia. A vida psíquica é muito mais complexa do que a lógica binária das plataformas permite mostrar.
Mas também é simplista colocar toda a responsabilidade nas redes sociais. O crescimento do autodiagnóstico expõe uma falha real no cuidado em saúde. Muita gente recorre à internet porque encontra demora, escassez de especialistas, barreiras de acesso ou consultas em que suas dúvidas não são acolhidas com o tempo necessário. Quando o cuidado não oferece caminho, o algoritmo oferece atalho.
No caso do autismo, essa discussão ganha ainda mais relevância. Pela primeira vez, o Brasil passou a ter um retrato nacional sobre o tema: dados do Censo 2022, divulgados em 2025 pelo IBGE, mostraram que 2,4 milhões de pessoas no país já receberam diagnóstico de autismo, o equivalente a 1,2% da população brasileira.
Isso é muito diferente de banalização diagnóstica. Porque diagnóstico sério não nasce de identificação. Diagnóstico sério nasce de processo clínico. No caso do Transtorno do Espectro Autista (TEA), o diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, baseado em história do desenvolvimento, observação comportamental, entrevistas com pais ou cuidadores, avaliação da comunicação, da interação social e dos padrões de comportamento, além da análise de possíveis condições associadas.
No Brasil, esse entendimento aparece em documentos do Ministério da Saúde, como a Linha de Cuidado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista, e em diretrizes de reabilitação da rede pública. No Reino Unido, o NICE reforça a mesma lógica: diagnóstico exige avaliação estruturada, contextual e multiprofissional.
Existem, sim, instrumentos que ajudam a tornar essa avaliação mais consistente, mas é fundamental distinguir ferramentas de rastreio de instrumentos de apoio à avaliação diagnóstica. Entre as ferramentas de rastreio, destaca-se o M-CHAT-R/F, amplamente utilizado em crianças pequenas para identificar sinais precoces de risco para Transtorno do Espectro Autista (TEA). Escalas como o SRS também podem contribuir para a identificação de dificuldades relacionadas à comunicação social e à presença de padrões comportamentais repetitivos, funcionando como instrumentos complementares de triagem.
Já entre os instrumentos de apoio à avaliação diagnóstica estruturada, o ADOS-2 e o ADI-R são os mais frequentemente citados na literatura internacional, além de escalas complementares como a CARS, que auxiliam na caracterização clínica do quadro e na análise da intensidade dos sinais observados. Mas é importante dizer com clareza: nenhum desses instrumentos, isoladamente, estabelece diagnóstico. Todos devem ser interpretados dentro do contexto clínico, da história do desenvolvimento, da observação comportamental e, sempre que necessário, da avaliação multiprofissional.
Em outras palavras, escala não substitui consulta, e rastreio não é diagnóstico. Outra confusão comum é a ideia de que o diagnóstico depende de um único profissional ou de um “teste definitivo”. Na prática, o melhor cuidado costuma envolver avaliação multiprofissional, especialmente em casos mais complexos.
O diagnóstico médico pode ser feito por profissionais da pediatra do desenvolvimento, neuropediatra, psiquiatra da infância e adolescência, psiquiatra ou neurologista, enquanto psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais da saúde e do desenvolvimento têm papel essencial na investigação e na compreensão global do caso.
É importante dizer com franqueza: a dúvida de quem se reconhece em um conteúdo online não deve ser ridicularizada. Muitas vezes, há sofrimento real, anos de estranhamento, sensação de inadequação e uma busca legítima por sentido. O problema é transformar esse primeiro reconhecimento em ponto final.
As redes sociais podem, sim, ser uma porta para informação e conscientização. O problema é quando passam a ser tratadas como ponto de chegada. A resposta não está em demonizar a internet nem em desqualificar quem busca respostas online. Está em qualificar a conversa pública sobre saúde, fortalecer a educação em saúde mental e neurodesenvolvimento, cobrar mais responsabilidade das plataformas e, sobretudo, recuperar o valor da avaliação clínica séria.
Porque, em saúde, identificação não é sinônimo de diagnóstico. E, em tempos em que o feed responde rápido demais, a medicina precisa reafirmar algo simples e cada vez mais valioso: compreender alguém de verdade ainda exige tempo, escuta e método.