Nós, os humanos que transformam tudo em cultura, de certa forma fomos moldados também a partir das experiências com essa e outras enfermidades. A malária mudou destinos, individuais e coletivos.
E, para quem trava contato com ela, a experiência é inevitavelmente marcante. “Uma mulher jovem torna-se nonagenária e se exaure a cada passo. Se lhe tivessem perguntado o que sentia, ela só se lembraria da imagem de alguém amassando um papel para jogá-lo no lixo. Um ser humano amassado num cesto de lixo. Ali estava ela”, escreve Stephan na obra traduzida do alemão por Claudia Abeling.
Uns caem, outros se recuperam. A Organização Mundial da Saúde (OMS)... [Leia mais]
Nós, os humanos que transformam tudo em cultura, de certa forma fomos moldados também a partir das experiências com essa e outras enfermidades. A malária mudou destinos, individuais e coletivos.
E, para quem trava contato com ela, a experiência é inevitavelmente marcante. “Uma mulher jovem torna-se nonagenária e se exaure a cada passo. Se lhe tivessem perguntado o que sentia, ela só se lembraria da imagem de alguém amassando um papel para jogá-lo no lixo. Um ser humano amassado num cesto de lixo. Ali estava ela”, escreve Stephan na obra traduzida do alemão por Claudia Abeling.
Uns caem, outros se recuperam. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima em mais de 280 milhões o número de casos de malária por ano, um drama que resulta em ao menos 610 mil mortes em 80 países, a maioria na África, embora o Brasil também esteja na lista, como os sistemas de vigilância e o romance comprovam.
Nos sentimos os donos do mundo, mas, na verdade, nós o dividimos com outras espécies. A cada passo da humanidade há um voo de um mosquito. Com a palavra, Carmen Stephan.
Como a malária apareceu na sua vida? Fiz uma viagem à Amazônia, onde fui picada sem nenhum sinal visível. O mosquito da malária é bem discreto. Quando estava voltando para o Rio, onde morava na época, fiz uma parada no sul da Bahia. No meio da noite, fui acordada por uma forte dor de cabeça e tive febre alta. Senti logo que era alguma coisa diferente.
De onde surgiu o insight de dar voz à fêmea do mosquito para narrar o romance? Houve um momento na sala de emergência do hospital em que o médico disse a palavra “malária”, e um mosquito surgiu na minha imaginação. Ao relembrar isso, me perguntei qual seria, afinal, o papel do inseto no livro. Acho que foi assim que me veio a ideia.
Fala-se tanto que a literatura nos permite nos colocar no lugar (e na cabeça) do outro. Isso também se aplica a outras criaturas e animais? Para mim, foi uma experiência bem interessante. Durante o processo, tentei me colocar no lugar do animal e, naturalmente, passei a ver o ser humano com outros olhos. Surgiram observações que talvez só tenham sido possíveis graças a uma identificação gradual com o mosquito.
A natureza é linda, mas também cruel. Essa é uma conclusão inevitável? Olha, acho que depende do ponto de vista. A natureza faz o que ela precisa fazer. Tem também uma sabedoria nela que muitas vezes nem conseguimos imaginar.
O que mais te impressionou ao pesquisar a trajetória da malária na história da ciência e da humanidade? O impacto que ela causou quase no mundo inteiro, eu não tinha conhecimento disso. E também o fato de que o transmissor de uma das doenças mais antigas da humanidade só tenha sido descoberto tão tarde, na virada do século XX, por um inglês curioso que escrevia poemas sobre os mosquitos. A história dele também está no livro.