Para investigar, os pesquisadores analisaram dados de quase 28 mil pessoas que já haviam usado medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
A partir daí, eles cruzaram informações como peso antes e depois do tratamento, tempo de uso, dose, presença de efeitos colaterais e dados genéticos dos participantes. Em média, os voluntários iniciaram o estudo com IMC de 35 — faixa que configura obesidade — e, após cerca de oito meses de uso dos medicamentos, perderam pouco mais de 11 quilos. Na prática, isso representa uma redução de aproximadamente 12% do peso corporal.
Ainda assim, houveram diferenças importantes:... [Leia mais]
Para investigar, os pesquisadores analisaram dados de quase 28 mil pessoas que já haviam usado medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
A partir daí, eles cruzaram informações como peso antes e depois do tratamento, tempo de uso, dose, presença de efeitos colaterais e dados genéticos dos participantes. Em média, os voluntários iniciaram o estudo com IMC de 35 — faixa que configura obesidade — e, após cerca de oito meses de uso dos medicamentos, perderam pouco mais de 11 quilos. Na prática, isso representa uma redução de aproximadamente 12% do peso corporal.
Ainda assim, houveram diferenças importantes: alguns pacientes perderam mais de 25% do peso inicial, enquanto outros mal chegaram a 5%.
O que eles encontraram
Parte dessa variação já era esperada. O estudo confirma que fatores como gênero, idade, dose do medicamento e presença de diabetes influenciam os resultados.
Mulheres, por exemplo, tendem a emagrecer mais do que homens, enquanto pessoas com diabetes tipo 2 costumam ter uma resposta mais limitada. Mas esses fatores, juntos, parecem explicar apenas uma fração do que acontece.
O dado mais interessante surge quando a genética entra em jogo. Os pesquisadores identificaram uma variação (trata-se de uma variante genética chamada rs10305420, a título de curiosidade) em um gene chamado GLP1 — justamente o alvo desses medicamentos — associada a uma resposta melhor ao tratamento.
Na prática, pessoas com essa variante perderam, em média, cerca de 760 gramas a mais por cópia do gene. Pode parecer pouco, mas não é, especialmente considerando que se soma aos outros fatores já mencionados.
Efeitos colaterais
A genética também entra em cena quando o assunto são os efeitos colaterais. O estudo mostra que algumas variações no gene
GLP1
também estão ligadas a um risco maior de náusea e vômito, dois dos sintomas mais comuns para quem usa esse tipo de tratamento.
No caso da tirzepatida, a história fica um pouco mais complexa. Como ela age em dois caminhos ao mesmo tempo (GLP-1 e GIP), os pesquisadores encontraram um segundo ponto de influência: uma variação no gene
GIPR
também apareceu associada ao risco de náuseas e vômitos. Em termos simples, dependendo do perfil genético, a chance de passar mal pode ser maior.
Mas o dado mais curioso vem justamente da conexão entre efeito colateral e resultado. Os pesquisadores observaram que esses dois fenômenos caminham juntos. Ou seja, as mesmas vias do organismo envolvidas nos sintomas gastrointestinais também parecem estar ligadas à perda de peso.
Na prática, isso ajuda a explicar algo que já vem sendo percebido nos consultórios: quem sente mais náusea, muitas vezes, também emagrece mais.
Predição
A partir desses achados, os pesquisadores criaram modelos de Inteligência Artificial (IA) que combinam dados clínicos (como idade, peso e doenças) com informações genéticas para tentar prever como cada pessoa vai responder ao tratamento.
A verdade é que o modelo parece funcionar, mas ainda não é uma “bola de cristal”. No caso dos efeitos adversos, por exemplo, o modelo acerta em cerca de 65% a 68% dos casos – um desempenho considerado moderado.
Mesmo assim, os autores defendem que os resultados são prova de que já é possível começar a pensar em uma abordagem mais personalizada, em que o tratamento não seja igual para todo mundo, mas ajustado ao perfil de cada paciente – e, quem sabe, com tecnologias que ajudem nesta tarefa.
Limitações
Apesar de jogar luz sobre um tema ainda pouco explorado, o estudo vem com alguns “poréns” importantes.
O primeiro é que boa parte das informações foi
autorrelatada pelos próprios participantes
. Na prática, isso significa que dados como peso antes e depois, tempo de uso do medicamento e até os efeitos colaterais foram informados pelos próprios pacientes, e não medidos diretamente em consultório. E aí entra o risco clássico de imprecisões, seja por memória ou percepção.
Outro ponto importante é o perfil da população analisada. A maioria dos participantes tinha
ascendência europeia
, o que dificulta generalizar os resultados para outras populações. No Brasil, por exemplo, estamos falando de uma população altamente miscigenada, com grande diversidade genética, o que pode influenciar tanto a resposta ao tratamento quanto a ocorrência de efeitos colaterais.
Além disso, os dados analisados se referem ao uso dos medicamentos originais, e não de versões similares ou manipuladas — um detalhe importante, já que esses produtos vêm associados a uma série de riscos.
Também é bom colocar os achados genéticos em perspectiva. Embora chamem atenção, os efeitos identificados são classificados como
modestos
. Ter ou não uma determinada variante não define sozinho quem vai emagrecer mais ou ter mais efeitos adversos. É mais uma peça de um quebra-cabeça complexo, que envolve estilo de vida, presença de outras doenças e até o quanto a pessoa consegue manter o tratamento.