O uso intenso de celulares, redes sociais e jogos digitais já deixou de ser apenas uma questão de comportamento para entrar no radar da saúde mental. Em um país onde o tempo online chega a cerca de nove horas por dia – um dos mais altos do mundo -, especialistas começam a identificar um conjunto de sintomas e padrões associados ao excesso de telas.
A psiquiatra Carmita Abdo
, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), está entre os profissionais que passaram a observar mais de perto esses impactos. Após décadas estudando... [Leia mais]
O uso intenso de celulares, redes sociais e jogos digitais já deixou de ser apenas uma questão de comportamento para entrar no radar da saúde mental. Em um país onde o tempo online chega a cerca de nove horas por dia – um dos mais altos do mundo -, especialistas começam a identificar um conjunto de sintomas e padrões associados ao excesso de telas.
A psiquiatra Carmita Abdo
, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), está entre os profissionais que passaram a observar mais de perto esses impactos. Após décadas estudando comportamento, ela voltou sua atenção para a forma como dispositivos digitais vêm moldando hábitos e relações.
A proposta da especialista foi reunir psiquiatras para promover um diálogo sobre o tema. Não se trata, portanto, de uma pesquisa científica propriamente dita, nem de condições validadas oficialmente, mas são percepções recorrentes na prática clínica. A exceção é a dependência de videogames e jogos eletrônicos, hoje reconhecida formalmente como um transtorno.
A seguir, entenda os principais fenômenos associados ao uso excessivo de telas e por que eles preocupam.
Pesquisar sintomas na internet pode escalar rapidamente para um ciclo de preocupação excessiva. A pessoa passa a acreditar que tem doenças graves sem confirmação médica, o que aumenta a ansiedade.
Notificações, mensagens e conteúdos disputam atenção o tempo todo. Esse excesso de estímulos leva a um cansaço mental que prejudica a capacidade de tomar decisões — até mesmo as mais simples.
Text neck (ou pescoço tecnológico)
Não é só a saúde mental que paga a conta do excesso de telas. O corpo também sente (e bastante). A rotina cada vez mais colada nas telas já foi associada ao avanço da miopia (com projeções de que metade da população mundial precise de óculos até 2050), ao sedentarismo – peça-chave na epidemia de obesidade – e a uma lista crescente de dores musculares e problemas posturais. A coluna, claro, entra nessa história.
O problema é menos inocente do que parece. Com o corpo ereto, a cabeça pesa cerca de 5 quilos. Mas, à medida que se inclina para frente, essa carga aumenta muito sobre a região cervical. Repetido ao longo do dia, o movimento pressiona articulações, músculos e ligamentos, podendo irradiar dor para ombros, costas, punhos e até mãos.
Na prática, o celular deixa de ser só um hábito e passa a funcionar como gatilho para desconfortos persistentes – daqueles que vão se acumulando até virar dor crônica. E, não raro, atingem justamente quem mais usa o aparelho: os dedos que não saem da tela.