O cientista ainda ressalta que os filtros à disposição (aparência, gosto musical, hábitos) conferem uma enganosa sensação de familiaridade. “A tecnologia ainda não conseguiu derrubar 4 milhões de anos de evolução”, resume ele, que não é contra os aplicativos, os quais podem muito bem conspirar a favor, mas alerta que, do modo como vêm sendo usados pela maioria das pessoas, acabam produzindo conexões frágeis e geram uma crise de intimidade.
Sob o ângulo do lado cheio do copo, pesquisadores da Universidade Rutgers e do mesmo Instituto Kinsey foram a campo para examinar o quanto o fator tempo pode pesar em prol de laços afetivos verdadeiros. E o resultado... [Leia mais]
O cientista ainda ressalta que os filtros à disposição (aparência, gosto musical, hábitos) conferem uma enganosa sensação de familiaridade. “A tecnologia ainda não conseguiu derrubar 4 milhões de anos de evolução”, resume ele, que não é contra os aplicativos, os quais podem muito bem conspirar a favor, mas alerta que, do modo como vêm sendo usados pela maioria das pessoas, acabam produzindo conexões frágeis e geram uma crise de intimidade.
Sob o ângulo do lado cheio do copo, pesquisadores da Universidade Rutgers e do mesmo Instituto Kinsey foram a campo para examinar o quanto o fator tempo pode pesar em prol de laços afetivos verdadeiros. E o resultado confirmou com números a hipótese de que dar chance ao amor, como se diz, pode provocar elevados níveis de satisfação e plenitude. O levantamento mostra que 70% dos entrevistados reconhecem já ter se sentido fortemente atraídos por alguém que, em um primeiro momento, não lhes despertava uma fagulha sequer, e 30% contam ter inclusive se apaixonado — tudo isso depois de certo convívio, deixando o acaso se encarregar do resto.
Pois nessa teia, já bastante complexa, as redes adicionam à receita um complicador, justamente por subtrair, com frequência maior do que a desejada, a possibilidade do tradicional, e às vezes tão certeiro, olho no olho. “As bolhas digitais podem gerar ruídos de interpretação de mensagens e ansiedade naqueles que só se comunicam por elas. A humanidade precisa do modo presencial”, enfatiza a antropóloga Aline Gama, da Uerj. Sem ele, o terreno para distorções se faz fértil. O estudante de direito Ian Moura, 22 anos, admite que os apps estavam lhe fazendo mal ao notar que nada mais ali o satisfazia. “Criei um ideal de perfeição e o outro nunca correspondia à minha expectativa”, relata ele, que decidiu se abrir à selva amorosa longe das telas, no que não está sozinho. Grandes aplicativos, como Bumble e Tinder, que costumavam registrar crescimento de adeptos ano após ano, estão assistindo pela primeira vez a um declínio (de 5% e 10%, respectivamente, em 2025). Não chega a ser expressivo, até porque uma multidão ainda tenta a sorte ali, mas é um sinalizador de que os ventos estão mudando — e também os apps terão de acompanhá-los.
Ao mesmo tempo que podem ser fonte de dissabor, frustrando a turma à procura de uma conexão que faça sentido à vida, os aplicativos de namoro também veem florescer casos exitosos, como o do psicólogo Felipe Gomes, 27 anos, que na origem era um cético da trilha virtual, mas se surpreendeu. “Fiquei uma semana falando com minha atual noiva. Buscamos afinidades, passamos a sair e descobrimos que tínhamos tudo a ver”, lembra Felipe, já contabilizando cinco anos de estrada ao lado da engenheira Ana Beatriz Oliveira, 27 anos. “Os aplicativos são uma forma contemporânea de se relacionar; não podemos ter uma visão saudosista e preconceituosa, insistindo que o passado era melhor. São apenas modos diferentes que podem ser muito bem aproveitados”, observa a psicanalista Regina Navarro Lins.